O MACHADO DE ASSIS MARANHENSE
Vejam só como este mundo é pequeno, atos e fatos das pessoas se entrelaçam. Quem haveria de saber, talvez até pudesse adivinhar, que existem teorias estranhas, como a tal controvertida Vidas Paralelas. Observem que a teoria não é tão despropositada, pois até Goethe, aquele afamado escritor e filósofo alemão, acreditava que a alma humana evolui ao longo do tempo, o que demonstrou em seu livro Afinidades Eletivas. Neste livro, Goethe aborda esse misterioso tema.
Observe-se,
entrementes, outra singularidade que ora reconhecemos. Machado de Assis, escritor carioca de raras qualidades literárias,
viveu de 1839 a 1908, quando faleceu. Enquanto Astolfo Marques, maranhense, coincidentemente, viveu na mesma época, nascido em 1889 e falecido em
1908, portanto Machado viveu 69 anos, enquanto Astolfo apenas 42 anos.
Ora,
não cessam ai as circunstâncias entre os dois,
ambos eram negros, nasceram de famílias pobres, não frequentaram
colégios, eram autodidatas e o que é mais interessante, ambos se dedicaram às
letras, com êxito, conquanto não se possa comparar, em termos literários,
Machado com o maranhense desconhecido,
Astolfo Marques. Os dois, entretanto, assumiram cargos na administração
pública, Machado que fundou a Academia
Brasileira de Letras, enquanto Astolfo, se não foi fundador, desde o início
pertenceu a recém-fundada Academia Maranhense de Letras.
Segundo
se depreende do livro A Nova Aurora, de 1913,
seu autor Astolfo Marques, novelista maranhense,
narra fatos ocorridos em São Luís, após a Proclamação da República, daí seu
livro ter sido considerado um marco
importante na historiografia política brasileira, pelas ocorrências havidas na
capital maranhense, provenientes da violência das autoridades aos oponentes da novel República, os quais se
opuseram ao novo regime e a queda da Monarquia. Assim o livro A Nova Aurora, a título de embevecer o regime recém
implantado, em certos aspectos acaba apontando os efeitos negativos do
regime recém implantado no País.
É
de vê-se que jamais o velho Bruxo de
Cosme Velho ousaria fazer jogo duplo, ele funcionário público de prestígio
perante o Imperador, embora subrepiticiamente criticasse aspectos do regime,
inclusive com críticas subliminares nas suas crônicas jornalísticas diárias.
Mutatis mutandis, isto não nos impede, também como cronista cotidiano
neste portal livre, de apontar certa similitude entre os dois negros literatos,
um carioca e outro maranhense, quiçá representando a festejada Atenas Brasileira.
Ambos
— de origem pobre e autodidatas — ousaram provar que o verdadeiro intelectual
nem sempre se encontra nas Universidades, nos veios da alta roda onde prelibam os
sábios arrogantes. Muitos dos mais autênticos hommes-des-letres, os verdadeiros
escritores, vencem por si mesmo e com grandeza de caráter forjam seu lugar ao
sol.
Bsb, 7.02.26

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